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Márcio Sampaio escreve sobre o trabalho de Erli

A CERÂMICA DE ERLI FANTINI

Em mais de três décadas de prática artística, Erli Fantini elegeu a cerâmica como seu principal meio de expressão, realizando uma obra que nos permite imergir num espaço de surpreendentes revelações.

Esta mostra estabelece uma conexão progressiva de sentidos, fazendo com que cada peça se torne parte expressiva de uma poética que alude às instâncias mais sensíveis de nossa existência no mundo. Silenciosa, profunda, grave, ao mesmo tempo luminosa, festiva, lúdica.

Inventa objetos de uso incerto, torres modeladas em torno, muros obscuros, casas-abrigo. Blocos de tijolos de barro ainda úmido, colhidos em olaria, são esculpidos em rigorosa e áspera geometria.

Erli incorpora a essas construções figuras humanas, personagens misteriosos sem rosto e sem traço algum de identificação. Deixa-os ali, postados nas janelas, nos torreões, nos vãos, expostos ao silêncio e à imobilidade, em sofrida espera, a guardar seu farnel de sentimentos secretos.

O domínio técnico, abonado por anos de exercício, experimentações, pesquisas, é que deu à artista segurança na manipulação de materiais e equipamentos e controle de todo o complexo sistema da arte da cerâmica. Da argila recolhida de generosas minas mineiras, da manipulação precisa dos elementos químicos e orgânicos, da compreensão da alquimia desta arte milenar e tão nova, do ritual quase religioso em que se constitui todo o processo, desde a criação dos objetos/esculturas, o uso da cor e das texturas até a queima das peças, a abertura do forno e a surpresa dos resultados, a artista vai construindo um repertório pessoal, seu vocabulário técnico, sua sintaxe expressiva, cujo resultado aí está para o encantamento e a celebração de quem venha compartilhar dessa poética aventura de imaginação e fantasia.